Vacina vira alvo de mentira – Banca.com

Boatos sobre imunização se multiplicam nas redes, orquestrados por grupos antivacina e apoiadores de Bolsonaro

Na manhã do último domingo (13), o advogado carioca Julio Lyra, 57 anos, recebeu uma notificação no grupo de WhatsApp da família. Entre as habituais mensagens de bom dia, enviadas por primos, tios e agregados, um texto com título chamativo ganhou sua atenção. “Vacinar-se ou não? Leiam. Mensagem de Robert F. Kennedy Jr”, lia-se na primeira linha do texto. O corpo da mensagem, sem links para veículos de notícias, é um extenso caldo de mentiras sobre as vacinas de Covid-19. O texto, encaminhado por uma prima mais velha de Lyra, negava a pandemia e anunciava que a vacina contra o coronavírus, supostamente financiada por Bill Gates, modificava o DNA dos seres humanos e causava um dano genético irreversível. Nessa narrativa delirante, a “grande mídia” seria cúmplice do “controle da mente”. Apesar da sucessão de falsidades, essa mesma mensagem já aparece com um aviso do Whatsapp: “encaminhada com frequência”. A autoria do texto não foi comprovada. O médico citado na mensagem, Robert F. Kennedy, realmente existe – e é parte do movimento antivacina norte-americano.

Lyra desconfiou da mensagem assim que leu os primeiros parágrafos. Decidiu consultar sua filha, Nathália, de 21 anos. “Ela é estudante de Farmácia e gosta muito dessa parte de pesquisa”, explica Lyra. “Eu sempre confirmo as notícias com ela antes de repassar porque sei que as pessoas mandam muitas fake news sem conferir”. Quando Nathália recebeu a mensagem do pai, devolveu: “Que merda é essa?” Ela e Julio Lyra sabem que as vacinas contra a Covid-19 não alteram o DNA de ninguém – mas nem todo mundo tem essa certeza. Em sua conta no Twitter, o ex-deputado Roberto Jefferson compartilhou a mesma mensagem que Lyra recebeu pelo Whatsapp, dizendo que a vacina “globalista” trocaria “o nosso DNA pela marca da Besta”. O tuíte já teve mais de 6 mil curtidas.

O projeto Comprova – coalizão que reúne 28 veículos de comunicação (incluindo a piauí) para verificação de informações – já desmentiu duas vezes esse boato. Um dos vídeos que aborda a suposta alteração de DNA chegou a ter 142 mil visualizações no Facebook. Só em 2020, o Comprova analisou 32 conteúdos relacionados à vacina – 13% de todas as checagens do grupo. A maior concentração foi entre outubro e novembro, quando metade das verificações eram relacionadas a esse tema. Agora, os checadores observam um aumento progressivo de notícias falsas sobre as vacinas, que colocam em xeque a segurança dos imunizantes. As teorias conspiratórias usadas por aqui evocam argumentos explorados há anos pelo movimento antivacina dos Estados Unidos. Uma pesquisa realizada no ano passado mostrou que dois a cada cinco norte-americanos duvidam da segurança das vacinas.

Sérgio Lüdtke, editor do projeto Comprova e integrante da equipe da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), trabalha com checagem desde 2018. À época, Lüdtke mantinha um relacionamento próximo com a equipe da First Draft, uma plataforma norte-americana pioneira na checagem de informações. “Eles sempre nos questionavam sobre os movimentos antivacina no Brasil e nós dizíamos, com orgulho, que esse problema não existia por aqui”, lembra Lüdtke. Criado em 1973, o Programa Nacional de Imunizações do Brasil já foi citado como referência mundial na Organização Pan-Americana de Saúde. Com ele, o país erradicou a poliomielite e controlou, durante anos, os casos de sarampo. Não havia espaço para os negacionistas. Agora, Lüdtke sabe que o cenário é outro. “Nos últimos meses, testemunhamos um crescimento bárbaro de conteúdos falsos sobre a vacina”, diz. Atualmente, todas as seis investigações em andamento no Comprova estão relacionadas às vacinas. CAMILLE LICHOTTI UOL

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